O trauma e suas consequências
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O trauma é um acontecimento externo doloroso, tão intenso que a criança ou o adulto se sente incapaz emocionalmente de entender o que viveu ou o que está vivendo. Fica registrado na memória do corpo, uma vez que, o corpo é a sede de nossas emoções e sensações. Também fica marcado na mente por meio de imagens das cenas vividas. Assim, quando a pessoa se depara com uma situação similar a mente evoca as imagens da cena traumática que, por sua vez, desperta as sensações e emoções associadas, como um gatilho que dispara e atinge o corpo de alguém. O trauma pode surgir por: 1) acidentes (parto, automóvel, parto); 2) perdas e separações precoces; 3) experiências vividas no meio familiar (violência física, sexual, psicológica). A negligência é uma forma de abuso psicológico, podendo causar trauma por desenvolver sentimentos de desamparo, desproteção, abandono e medos. Quero falar especificamente dos traumas ligados à violência psicológica. Quando os pais proferem palavras destrutivas que ferem a autoestima da criança ("Você não presta para nada! Você é burro! Você não devia ter nascido, só me dá trabalho!"), isso fica marcado no seu corpo e na sua mente, repercutindo negativamente na vida adulta, nas relações profissional, amorosa, social, em que a pessoa não desenvolverá a confiança em si, nas suas escolhas e, ainda, terá dúvidas sobre se é capaz de ser amada e mesmo de amar alguém. Alguns pais me perguntam se o grito pode causar trauma. Eu respondo que só causa trauma se for uma constante, se é um padrão de comunicação, que vem carregado de palavras ferinas. Quando o grito é pontual, usado para conter a desregulação emocional da criança, uma birra, um desrespeito com as figuras paternas (quando a própria criança grita com os pais ou xinga ou bate), torna-se de extremo valor para garantir o poder parental. A criança que não aceita e não respeita a autoridade do pai, não irá respeitar ninguém no mundo (avós, vizinhos, colegas, professora, polícia). Portanto, pais não temam dar o grito educativo, não temam dizer não, não temam frustrar a criança, ainda mais se for por medo de perder o amor do filho. É a criança que tem que temer perder o amor parental, devido as suas condutas intempestivas. Amar é educar. Educar é dar limites. Cuidar é dizer NÃO, para a criança aprender que nem tudo que quer pode, para entender que há consequências para seus atos inadequados de desrespeito. Não é saudável não dar limites à criança, pois, assim, ela não desenvolverá recursos internos (o autocontrole, a autocontenção, o pensamento crítico realista) para lidar com a frustração, com a vontade do outro distinta da sua, com as regras do ambiente. Sem frustração e repreensão não há amadurecimento, o que ensina o limite existente na fronteira entre o eu e o outro. Quando há o amor nutritivo na família, o respeito, a aceitação das diferenças, a confirmação e a validação do modo de ser individual de cada um prevalecerá. Assim não haverá traumas, haverá sim a continuidade do fluxo do amor. E como diz Adélia Prado: "O que a memória ama fica eterno".


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