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A criança para além dos sintomas

  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

A CRIANÇA PARA ALÉM DO SINTOMA: A INTERFACE ENTRE AS FERIDAS DA CRIANÇA E AS FERIDAS DOS PAIS

 

Por trás de todo sintoma há um apelo para que se olhe o sofrimento não entendido. Por trás de um sintoma, há uma pessoa a ser compreendida e um conflito verdadeiro a ser trazido à luz. O sintoma surge como tentativas de a criança ajustar-se criativamente por meio de comportamentos, pensamentos, tensões corporais, que visam neutralizar a angústia. O sintoma mascara o drama real, criando um falso problema a ser resolvido. A enurese noturna, enquanto sintoma corporal, mostra uma criança funcionando de maneira regredida para obter os benefícios dos cuidados corporais primitivos (trocar fralda/roupa, fazer dormir, receber atenção), que não recebeu apropriadamente ou, ainda, para atender a necessidade dos pais de permanecer infantil e dependente. Dahkle e Kaesemann (2014, p. 376) referem-se à enurese noturna como “um choro inferior, quando em cima não é consentido – uma lágrima noturna”, a criança expressa sua angústia à noite, quando de dia não pode expressar. O sintoma pode aparecer em resposta à repressão, violência, negligência (falta de limites, de cuidados), pelo excesso de exigências, críticas; quando não há equilíbrio entre o dar e o receber; quando há temor da perda do amor parental, do desamparo, da rejeição, da punição, do abandono; quando se reprime a expressão das emoções. Quando não se fala o que se sente, a palavra oculta cria um dado sintoma. Ao conter a emoção, a criança aprende que deve atender a necessidade primária das figuras parentais e não a sua, a qual se torna secundária - o outro será figura e ela sempre fundo na relação. A acomodação às necessidades dos pais, em geral leva (mas não sempre) ao desenvolvimento da “personalidade como se” (Miller, 1997, p.23). Em verdade, os pais projetam seus conflitos não resolvidos da infância na criança, a qual introjeta, tomando para si aquilo que não é dela, desviando-se do seu destino pessoal, renunciando a própria realização, satisfação e personalidade. Miller (1997) afirma ainda que a tragédia da infância dos pais será perpetuada, inconscientemente, nos filhos, enquanto não olharem para a própria história, pois, assim podem se livrar das próprias feridas ao delegá-las aos filhos (p. 74). O sintoma então é uma metáfora de um doloroso sofrimento emocional que expressa um conflito relacional revestido de conteúdos psicoemocionais específicos construídos no campo familiar, na fronteira de contato entre a criança e os pais, sendo transmitido transgeracionalmente. Perls (2002, p. 89) afirma que “o perigo, quer seja externo (ataque) ou interno (quando somos hostis a alguma parte de nós mesmos), é percebido pelos olhos, os ouvidos, pela pele, em resumo, por qualquer órgão sensorial com o qual estabelecemos contato com o inimigo”. Quanto menor a criança, mais ela usa o corpo como fonte de descarga de tensão emocional, mais manifesta sintomas psicossomáticos. A criança tudo faz para manter o amor e a aprovação parental. As condutas adotadas para amenizar o sofrimento, que se tornam problemáticas/sintomáticas, representam a tentativa de reestabelecer o equilíbrio, bem-estar consigo e com a família, refletindo o paradoxo - onde existe doença, há um processo de busca pela saúde. A criança, com seu sintoma, é a voz que denuncia o mal-estar nas relações familiares, é aquele membro que se sacrifica pela cura do sistema familiar, assumindo inconscientemente a missão de salvar a família (Antony, 2020, p. 99). O gestaltista deve ir além dos sintomas, deve buscar compreender a criança como um todo (seu sofrimento, seu potencial), uma vez que a doença não existe por si só, existe situada em um sujeito que lhe dá forma, rosto, uma configuração própria.

 
 
 

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