A criança para além dos sintomas
Atualizado: 10 de out.
A CRIANÇA PARA ALÉM DO SINTOMA: A INTERFACE ENTRE AS FERIDAS DA CRIANÇA E AS FERIDAS DOS PAIS
Por trás de todo sintoma, há um apelo para que se olhe o sofrimento não entendido. Cada sintoma carrega uma história. Ele revela uma pessoa que precisa ser compreendida. Um conflito verdadeiro está à espera de ser trazido à luz. O sintoma surge como uma tentativa da criança de se ajustar criativamente. Isso acontece por meio de comportamentos, pensamentos e tensões corporais. Esses elementos visam neutralizar a angústia. No entanto, o sintoma mascara o drama real. Ele cria um falso problema a ser resolvido.
A Enurese Noturna e Seus Significados
A enurese noturna é um exemplo claro. Ela mostra uma criança que funciona de maneira regredida. Essa regressão ocorre para obter os benefícios dos cuidados corporais primitivos, como trocar fralda ou receber atenção. Muitas vezes, a criança não recebeu esses cuidados adequadamente. Além disso, pode ser uma forma de atender à necessidade dos pais de manter a criança infantil e dependente. Dahkle e Kaesemann (2014, p. 376) referem-se à enurese noturna como “um choro inferior, quando em cima não é consentido – uma lágrima noturna”. A criança expressa sua angústia à noite, quando durante o dia não pode fazê-lo.
Sintomas e Suas Causas
Os sintomas podem aparecer em resposta a várias situações. Repressão, violência e negligência são algumas delas. A falta de limites e cuidados adequados também contribui. O excesso de exigências e críticas gera um ambiente hostil. Quando não há equilíbrio entre dar e receber, o sintoma pode se manifestar. O temor da perda do amor parental, do desamparo e da rejeição também é um fator. Quando se reprime a expressão das emoções, a palavra oculta cria um sintoma. Ao conter a emoção, a criança aprende que deve atender às necessidades dos pais. Assim, suas próprias necessidades se tornam secundárias.
O Impacto dos Pais na Criança
A acomodação às necessidades dos pais geralmente leva ao desenvolvimento da “personalidade como se” (Miller, 1997, p. 23). Os pais projetam seus conflitos não resolvidos na criança. Esta, por sua vez, introjeta esses conflitos, desviando-se do seu destino pessoal. Renuncia à própria realização, satisfação e personalidade. Miller (1997) afirma que a tragédia da infância dos pais será perpetuada nos filhos. Isso acontece enquanto não olharem para a própria história. Assim, podem se livrar das próprias feridas ao delegá-las aos filhos (p. 74).
O Sintoma como Metáfora
O sintoma é uma metáfora de um doloroso sofrimento emocional. Ele expressa um conflito relacional revestido de conteúdos psicoemocionais específicos. Esses conteúdos são construídos no campo familiar, na fronteira de contato entre a criança e os pais. Além disso, esse sofrimento é transmitido transgeracionalmente. Perls (2002, p. 89) afirma que “o perigo, quer seja externo (ataque) ou interno (quando somos hostis a alguma parte de nós mesmos), é percebido pelos olhos, os ouvidos, pela pele, em resumo, por qualquer órgão sensorial com o qual estabelecemos contato com o inimigo”.
A Criança e o Corpo
Quanto menor a criança, mais ela usa o corpo como fonte de descarga de tensão emocional. Isso resulta em sintomas psicossomáticos. A criança faz tudo para manter o amor e a aprovação parental. As condutas adotadas para amenizar o sofrimento tornam-se problemáticas. Elas representam a tentativa de reestabelecer o equilíbrio e o bem-estar. Essa busca reflete um paradoxo: onde existe doença, há um processo de busca pela saúde.
A Voz da Criança
A criança, com seu sintoma, é a voz que denuncia o mal-estar nas relações familiares. Ela é o membro que se sacrifica pela cura do sistema familiar. Inconscientemente, assume a missão de salvar a família (Antony, 2020, p. 99). O gestaltista deve ir além dos sintomas. É fundamental buscar compreender a criança como um todo. Isso inclui seu sofrimento e seu potencial. A doença não existe por si só. Ela está situada em um sujeito que lhe dá forma, rosto e uma configuração própria.
A Importância da Compreensão
Compreender a criança é essencial. Isso não apenas ajuda a aliviar o sintoma, mas também promove um espaço seguro para que a criança possa expressar suas emoções. Quando a criança se sente ouvida, ela começa a se curar. O processo de cura é uma jornada que envolve tanto a criança quanto os pais. É um caminho que requer paciência e empatia.
Conclusão
A relação entre as feridas da criança e as feridas dos pais é complexa. No entanto, é fundamental que ambos os lados sejam ouvidos e compreendidos. A terapia Gestalt oferece um espaço para essa compreensão. Ela permite que as crianças e os pais explorem suas emoções e experiências. Ao fazer isso, podemos restaurar a capacidade de amar e confiar. Essa é a verdadeira essência da cura.
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